Entre sachês, vestidos e paletós.

5 de Novembro, 2007

Minha querida calcinha-cultural Laís, inspirada pelo filme, andou escrevendo sobre o passado. Marimari, a secretária-do-lar mais cool dessa tal de internet andou se inspirando em Chico, e a desordem de seu armário embutido, para dar valiosas dicas sobre cabides. Elas não sabem (ainda), mas juntas criaram um ambiente que fez com que me fosse impossível não escrever esse artigo.

Eu explico. Em um passado que, ora me parecia tão distante, meu vestido era abraçado por um paletó, felizes na desordem do armário embutido. Criaram juntos sua história, até que chegou a hora de uma inevitável separação. Chico Buarque parecia estar nos assistindo sorrateiramente quando escreveu a letra de “Eu te amo”. Foram dias sofridos. Passaram-se entre conversas recheadas de boas lembranças, momentos de ‘luto’ pelo fim do que parecia tão belo, e seguidas frustradas tentativas de reconciliação. A cada frustração, uma nova mágoa, um pouco mais da certeza de que foi bom enquanto durou, mas já não era mais a mesma coisa. Não valia mais a pena lutar, e mágoas foram guardadas, palavras não foram ditas, e mentiras sinceras interessavam.

Passou-se o tempo. A história de amor e separação parecia ter ficado no passado, dando espaço para um presente de muito carinho e amizade. Seguíamos caminhos diferentes, mas ainda confiávamos, vez ou outra, nossos olhos e pernas um ao outro, perguntando para onde ir, e como ir. Havia um laço que não queríamos romper, insistiamos em mantê-lo mesmo que cada vez mais fraco, pois nos trazia uma sensação de segurança e conforto. Até que o passado voltou à tona, de forma arrebatora, despertado por um ato aparentemente inofensivo. Palavras guardadas foram ditas, as mentiras sinceras foram questionadas, feridas foram re-abertas. O passado não parecia mais tão passado assim, e engolia o presente. Com a explosão, o fraco laço finalmente rompeu-se. Mas de forma abrupta e dolorida.

O passado não some, não desliga, não desaparece, mas passa – mesmo que devagar. E ao passar deve ter como destino final um remoto cantinho do novo armário embutido, como um sachê. Você sabe que ele está ali, sente seu cheiro predominante, carrega um pouco consigo em suas roupas, faz do agradável odor sua inspiração para um novo dia. Outros dias. E tantos dias depois, aquele odor já não será mais tão perceptível, estará misturado a outros novos odores, novas inspirações, novos pedacinhos de passado deixados ali.

O importante é que cada parte do nosso passado seja empacotada em um único sachê que, no momento certo, terá sua fita cortada e laçada. É impossível recomeçar do zero, os odores se misturam. Mas cada sachê pode ser iniciado após o outro, sem riscos de nos sentirmos subitamente inebriados por um odor predominante e reincidente, ainda solto por aí. E no futuro, quem sabe novos laços possam formar-se entre quase inodoros sachês do remoto passado.

Finalmente, cortei a fita e dei o laço final em um sachê que teimava em permanecer entre-aberto. E agora, me sinto preenchendo em paz um único sachê aberto, mesmo que ainda sob a influência do cada vez mais suave odor anterior.

E Papo Calcinha também é auto-terapia. Que nossos armários embutidos se encham de sachês, completos e indivisíveis, e que o odor final seja cada vez mais agradável.

Deixo vocês com a letra de Chico - esse homem dotado de indescritível talento para transformar em lindos versos os mais confusos tormentos e alegrias de nossa’lma humana, além de dono de grande charme :)

‘Eu te amo’ – Chico Buarque

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Se ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nas travessuras das noites eternas,
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu
Como, se na desordem do armário embutido
Teu paletó enlaça o meu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu
Como, se nos amamos feito dois pagãos
Meus seios inda estão nas suas mãos
Me explica com que cara eu vou sair
Não, acho que estás me fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir

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Por Claire.



4 comentários para “Entre sachês, vestidos e paletós.”

  1. mdorin,

    ai que beeeauuutifull… adorei a metáfora da nossa vida amorosa ser uma coleção de sachezinhos sortidos!

  2. Ana,

    Acho q no meu caso em vez de sache viram patua e se duvidar tem q despachar. KKKKKKKKKKKKK Mas perfeita a metafora AMEI!!!

  3. Luma,

    LINDO,LINDO!!!!
    Só a dor e o amor para serem transformados numa sublimação perfeita .Lindo seu texto, e cheio de poesia, daquelas que faz a gente suspirar e traz de volta alguns de nossos passados…afinal, todo mundo tem seu sachezinho guardadinho em algum lugar do armário!
    Ih…deixa eu ir lá correndo fechar a porta do armário…hehehehe

  4. Lais Orrico,

    amei! amei ter ajudado esse post a nascer. a metáfora é incrível e pensando bem… não é que cada sachê do passado tem um cheiro diferente mesmo?

Comentários