Velejar é preciso
4 de Maio, 2008
Fui para a corrida dos 10km, sem nunca ter corrido 10km.
Era um desafio pessoal. Uma aposta de mim, comigo mesma. Um momento que só dependia de quanto impacto minhas pernas resistiriam no asfalto. Treinei mal. Relaxei. Não tive uma semana de empenho. Fui pra largada pensando em uma coisa e pisei na linha de chegada com conclusões totalmente diferentes.
Uma corrida é como a vida. Você até acha que está no controle, mas as variáveis é que determinam seu ritmo, seu percurso e como é que você vai chegar ao final. E enquanto eu pensava na minha própria resistência, ia “conhecendo” pessoas pelo caminho.
- Um senhor explicava ao garoto que, hoje em dia, é importante prestar muita atenção. Os travecos estão evoluídos. É muito fácil confundir…
- Escutava uma conversa qualquer e discordava dos dois caras que corriam com uma camisa da Marinha. Quando eles me ultrapassaram, percebi que não importava o que eles dissessem. Um deles estava, visivelmente, em recuperação de algum problema físico grave. E corria para provar para ele e para mim que estava no jogo.
- O tiozinho da Quinta da Boa Vista voou. A menina com porte de modelo também. As tiazinhas de Furnas se uniram e correram em equipe. O casal de mais de quase 50 só faltou correr de mãos dadas. E teve o Alexandre. Pernas tortas, excesso de peso e uma torcida só pra ele… Tiraram fotos. A namorada e a melhor amiga voltaram um quilômetro para puxá-lo. Tinha gente passando para incentivá-lo. Até eu entrei na festa dele…
Como esses, muitos outros passaram pela minha corrida. Cada um corre como vive. Tem gente que tem ritmo. Tem gente que força no início e não chega nunca. Tem gente que puxa os outros. Tem gente que treina direito. Tem gente que só quer chegar. Tem os que cortam caminho. Tem os que já têm biótipo privilegiado. Tem os que precisam se esforçar mais…
E naqueles 10km, eu fui aprendendo muito sobre como coordenar isso. Sobre como definir qual era o meu caminho. Alguém me disse para ficar nas beiradas, assim você sairia em muitas fotos. Nem me lembrei disso. Muitas vezes me flagrei no centro, seguindo a linha branca que dividia as pistas no asfalto. Sem holofotes.
Lá pelo quinto quilômetro, tirei os óculos. No sexto, tirei o boné. No nono, tirei a camisa. Quanto menos tralha arrastar pelo caminho, melhor…
Também pensei que estava sendo ultrapassada por muito mais gente, do que ultrapassando. Mas desisti de ver nisso um problema.
Fiz um amigo. Ele tinha passado o mês anterior internado, com dengue, e acabava de voltar a correr. Segurei o meu ritmo e fiz boa parte da metade do percurso final com ele. Não havia nenhum problema se isso ia piorar o meu tempo. Eu não queria fazer nenhum tempo.
Não estava competindo. Estava velejando. É assim que a gente tem que passar pela vida… É assim que a gente deve escolher viver. Não adianta chegar a qualquer custo. É o que você fez no percurso que importa. E numa corrida, como na vida, não vale muito se você chega sozinho. Eu queria chegar… mas não de qualquer jeito.
Tempo: 1h06min45seg
Esportes por Michele Chaluppe Assunto: Maratona