Ele era um herói
27 de Março, 2008, por Michele Chaluppe, 3 comentários
Quando me perguntam quem é o melhor jogador de futebol do mundo, eu não penso nenhum segundo antes de responder: Neto. Não há dúvidas. Mas se tivesse nascido alguns anos antes, certamente diria Casagrande. Ainda é difícil dizer que alguém é grande sem ter visto com os olhos nus. Os relatos são incríveis. Os vt’s são deliciosos. Mas meus olhos viram Neto. E a ele devo tanto, que pago com essa resposta.
Mas até Neto perdoaria se eu mudasse o nome. Porque é certo que até Neto acha que o Casão está entre os maiores. No topo da lista de muitos. No coração de uma infinidade de pessoas.
Casagrande é grande pelo futebol, mas não só por isso. Casagrande é grande fora de campo também.
Um dia, de dentro de um ônibus em Alphaville, eu o vi do lado de fora, em um posto de gasolina, com o celular na orelha, falando. De shorts, camiseta, tênis e meia. Enquanto lavavam o carro dele, Casão batia papo. Conversava e dava voltas ao redor de si mesmo. Parecia livre. Da janelinha, pensei que se tivesse que escolher alguém para ser na vida, escolheria ter na identidade o nome de Walter Casagrande Jr.
Errei. Conhecia o mito. Conhecia a figura. Conhecia o que tinha por fora. O garoto que deu alegrias imensuráveis para a nação corintiana e que desafia Roberto Carlos para ter também um milhão de amigos, não era legal com ele mesmo. O cidadão que brincava naquele posto de gasolina era gentil com todo mundo, mas profundamente injusto com ele mesmo.
A Placar deste mês conta o drama. Uma vida enfurnada nas drogas, no álcool, na indisciplina e no sofrimento. A mulher não agüentou. Os filhos cresceram sem ele. As internações foram muitas – tantas quantas as recaídas. Casão era um deus, que escolheu o inferno para morar. E apesar da bondade nata, da sutileza, da gentileza e do amor, vivia cercado de pobreza, de tristeza, e de dor.
Se eu ainda quero ser o Casagrande? Só um motivo me faz, talvez, manter esse desejo. Queria ser Casagrande para fazer da vida dele o conto de fadas que ele fez para nós. Queria que ele sentisse o que os 30 milhões de corintianos tiveram quando ele vestiu a camisa do Timão. Alegria plena. Vontade de voar. Desejo profundo de viver para sempre.
Me parece que não é raro histórias de grandes jogadores que eram grande em campo e uma confusão fora dele…
Eu, que nem gosto tanto assim de futebol, li a biografia de Garrinca. O autor é muito bom e de cara no livro você se apaixona pelo garoto pobre, despretensiosa e que joga muito futebol. Mas no final é muito triste imaginar o jeito como ele terminou: alcolátra, pobre e sozinho.
Também dá vontade de poder fazer alguma coisa, de voltar no tempo e poder consertar a vida deste ídolo.
Michelinha, seus textos são sem dúvidos os melhores!!!
Seria muito bom que alguém pudesse ler o que você escreveu para o Casagrande, talvez ele precise ouvir o quão importante é na história de tantas pessoas. Quem sabe ele consiga ser importante para ele mesmo.
Mande seu texto para ele!
Publique uma foto dele aqui?