o amor dos tempos modernos devia ganhar outro nome.
ou será que o amor mudou de forma?
ou eu não estou sabendo lidar com as novas ferramentas?
eu já tive diário com chave, escrevi cartinhas apaixonadas em papéis de carta cheirosinhos que nunca enviadas, enviei outras em envelopes selados escritas em folhas de caderno (às vezes no meio da aula, confesso), colei mil adesivos no telefone do meu quarto enquanto esperava uma ligação, tentava me tornar visível indo aos mesmos lugares que o prospect estava….
hoje em dia o correio ficou eletrônica, o bina do celular deduz quem liga e você nem precisa passar a tarde em casa na cama olhando o telefone e pedindo para ele tocar e não tenta ser percebida quando passa, basta ficar online no MSN.
quantas vezes você já ficou clicando em “Enviar/Receber” do programa de e-mail para ver se tem alguma novidade na Caixa de Entrada?
quantas vezes você passou o dia esperando uma ligação no celular e quando o bina acusou a tal você clicou em “Ignorar” só para não atender e fazer charme?
quantas vezes você não atendeu um número desconhecido e depois ligou para saber se era quem você queria que fosse - e não a central do cartão de crédito?
quantas vezes você já ficou online, e offline e online de novo rezando para alguém do outro lado perceber a sua presença?
quantas vezes você já não abriu e fechou o MSN (ou qualquer outro programa de troca de mensagens instantâneas) para ver se tinha “alguém” online?
quantas vezes, durante uma conversa no MSN, você já não se pegou olhando a barra de status para ver se o outro estava escrevendo alguma coisa ou simplesmente ignorando seu ultimo “hahaha” (pena que não adianta jogar o cabelo para o lado nessa hora né?).
o amor dos tempos modernos não me seduz. me irrita. muito.
O MSN E O AMOR OU MIOJO SENTIMENTAL
(Xico Sá)
Em dez minutos, pronto, você está lá na maior das intimidades com a criatura. Tudo aquilo que demorava dias, meses, com as missivas ou flertes da vida real, virou coisa de segundos. É o amor nos tempos do Messenger… Tudo muito rápido, espécie de miojo sentimental, emoções baratas, 3,5 minutos, ferveu, fodeu!
Você nem carece pegar na mão, já vai direto pra cama, pra detrás da moita mais platônica. Não carece nem cantar Paulinho da Viola, olá como vai, quanto tempo, pois é, quanto tempo…
E não é coisa apenas desses moços, pobres moços. Minha amiga K., por exemplo, 55 anos, Madame Bovary dos tempos digitais, tem quatro amantes “fixos” virtuais, além do marido de carne, osso e ronco, como ela mesma diz. “Vou deixar um deles, pois não tem comparecido a contento”, solta a blague. Todos jovens, quase donzelos, meu Deus.
Antes bastava ficar de olho na chegada do carteiro, o bravo homem de amarelo, com o seu embornal de cobranças, boas novas ou lágrimas…
Amor e tecnologia… No princípio era apenas o bina, e matou o velho mistério do telefonema mudo e anônimo. Ofegante, a criatura, apaixonada, ligava só para ouvir a voz do obscuro objeto de desejo do outro lado da linha. Ou mandava uma música do Rei, de preferência a mais romântica: “Vou cavalgar por toda noite, numa estrada colorida…”
É, o telefonema dos desencorajados do amor, esse clássico das antigas, está praticamente enterrado.
Depois, chegou a telefonia móvel. Uma revolução na crônica de costumes. O fim de muitas desculpas canalhas. Tipo aquele homem que tomava um chá de sumiço e voltava, batom até no lenço d´alma, com os álibis mais inverossímeis desse planeta.
Outra alvissareira função do celular é fugir dos mal-assombros sentimentais. Você quer ir numa festa e sabe que aquele infeliz pode estar lá, serelepe, nos braços de uma “vagabunda” qualquer. Uma ligação e pronto, o amigo dá o serviço completo das assombrações. Pena que o mesmo aparelho também sirva para matar as surpresas, o friozinho na barriga, aquela coisa toda, lembra?
O amor nos tempos do Messenger. E o novo problema já está ficando velho, grego, decifra-me ou te deleto: como transformar uma tara platônica em uma trepada homérica?